ANDES-SN divulga resultado de enquete sobre condições de trabalho e saúde docente

Publicado em 03 de Junho de 2026 às 19h37. Atualizado em 03 de Junho de 2026 às 19h50

O ANDES-SN disponibilizou o relatório consolidado da Enquete Nacional sobre Condições de Trabalho e Saúde Docente. O documento foi apresentado no dia 29 de maio, durante a reunião do Grupo de Trabalho de Seguridade Social e Assuntos de Aposentadoria (GTSSA), realizada na sede do Sindicato Nacional, em Brasília (DF).

Com a participação de 3.591 docentes da ativa e 256 aposentadas e aposentados de instituições de ensino superior de diferentes regiões do país, a segunda etapa do levantamento foi realizado entre 2024 e 2025. A primeira etapa, aplicada em 2023, contou com a participação de 1.874 docentes.

Inspirada na "Enquete Operária", elaborada por Karl Marx, a iniciativa buscou estimular um processo de reflexão coletiva sobre as condições de trabalho e saúde da categoria, evidenciando o aprofundamento da precarização do trabalho docente, especialmente após a pandemia de Covid-19, além de subsidiar a atuação sindical na defesa de melhores condições de vida e trabalho.

Entre as e os docentes ativos, predominam mulheres cisgêneras (53,9%) e pessoas brancas (65,8%). Além disso, 89,5% possuem doutorado, 96,2% têm vínculo efetivo e 91,8% atuam em regime de dedicação exclusiva. A maioria (63,4%) trabalha em instituições federais e exerce atividades principalmente na graduação, embora mais da metade também atue em outros níveis de ensino. Entre as aposentadas e os aposentados, o perfil é semelhante.

Intensificação do trabalho
Os resultados revelam uma intensificação estrutural do trabalho docente. Cerca de 67,3% das e dos participantes afirmaram que houve aumento das atividades desempenhadas em comparação ao período anterior à pandemia. Além disso, 75,4% relataram trabalhar além da carga horária prevista em seus regimes de trabalho.

A enquete também evidenciou o crescente avanço do trabalho sobre o tempo livre, com atividades profissionais sendo realizadas regularmente aos finais de semana e feriados. Como consequência, 83,1% das e dos docentes ativos afirmaram sentirem-se sobrecarregados, condição associada à pressão por produtividade, ao uso intensivo de tecnologias de comunicação e à dificuldade de estabelecer limites entre a vida profissional e pessoal.

Para Jacqueline Lima, 1ª secretária do ANDES-SN e da coordenação do GTSSA, os resultados apontam uma mudança estrutural no padrão de trabalho docente após a pandemia. “A percepção dos docentes sobre as condições de trabalho após a pandemia indica que houve uma mudança do padrão de trabalho. Coletivamente, os docentes estão submetidos a uma exigência maior de trabalho, inclusive para além do horário, envolvendo finais de semana e feriados”, afirmou.

Hiperconectividade
O relatório apontou que a utilização intensiva de aplicativos de mensagens, e-mails e plataformas digitais para resolver demandas de trabalho fora do expediente se tornou uma característica permanente da atividade docente.

Entre as e os respondentes, 89,3% relataram utilizar diariamente aplicativos de mensagens para fins profissionais, enquanto 81,8% afirmaram resolver demandas de trabalho frequentemente (37,9%) ou sempre (43,9%) fora do horário regular.

Segundo Jacqueline Lima, a enquete identificou uma relação direta entre a hiperconectividade e a piora das condições de saúde. “Os dados mostram que, quanto maior o uso de aplicativos, e-mails e sistemas online para resolver demandas de trabalho, pior tende a ser a avaliação da saúde dos docentes. Esse grupo também relatou menos horas de sono e menor prática de atividades físicas”, destacou.

Saúde e adoecimento
Os impactos das condições de trabalho refletem diretamente na saúde da categoria. Mais da metade das e dos docentes (51,8%) relataram uma piora das condições de saúde no último ano. Cerca de 52,5% afirmaram uma redução das horas de sono e 41% disseram ter diminuído a prática de atividades físicas.

As doenças musculoesqueléticas (36,4%), que afetam ossos, músculos, articulações, tendões, ligamentos e coluna vertebral, e os transtornos de ansiedade (35,4%), como síndrome do pânico e fobia social, apareceram entre os principais problemas de saúde identificados pela enquete.

Para 67,8% das entrevistadas e dos entrevistados, o adoecimento está diretamente relacionado às condições de trabalho enfrentadas nas instituições de ensino.

O levantamento também registrou que raramente, algumas vezes, frequentemente ou sempre [FM1] as e os participantes sofreram situações assédio moral (60,9%), violência política (54,1%) e machismo (47,4%) no cotidiano institucional.

Descanso comprometido
De acordo com a enquete, 68,6% das e dos docentes trabalham frequentemente ou sempre aos finais de semana, enquanto 57,5% mantêm atividades laborais durante os feriados.

“A intensificação do trabalho docente se tornou um problema coletivo, agravado pela ampliação das demandas para além da jornada regular e pelo uso de ferramentas digitais. Por isso, é necessário construir estratégias de enfrentamento, no âmbito do ANDES-SN e das seções sindicais, incluindo o diálogo com as reitorias, para melhorar as condições de trabalho e conter a sobrecarga da categoria”, afirmou Jacqueline.

Gênero e orientação sexual
O estudo também revelou as desigualdades estruturais dentro da academia. Além de realizarem mais orientações e coorientações de estudantes de graduação, as mulheres acumulam uma carga significativamente maior de trabalho doméstico e de cuidados não remunerados.

As docentes relataram maior sobrecarga no trabalho, registrando 88,1% frente a 77,2% dos homens. Elas também relataram, com mais frequência, dificuldades para cumprir as demandas de trabalho e que estão mais expostas a diferentes formas de violência no ambiente laboral. O machismo é apontado como uma presença constante ("sempre") por 12,5% das professoras, ao mesmo tempo em que o índice entre os homens é de apenas 1%. Outro dado preocupante é que 22,5% das docentes afirmaram sofrer racismo nas relações de trabalho.

Segundo Jacqueline Lima, o gênero é um aspecto fundamental para compreender as condições de trabalho da categoria e deve ser considerado na formulação de estratégias de enfrentamento e mobilização sindical. “As mulheres docentes enfrentam níveis mais elevados de sobrecarga, trabalham mais fora da jornada regular e relatam maior insuficiência de tempo”, ressaltou.

O levantamento identificou maior incidência de violência no ambiente de trabalho entre docentes LGBTI+. Entre as e os respondentes, 13,9% se identificaram LGBTI+, 2,6% preferiram não responder, 0,2% indicaram não saber.

Os dados revelaram maior exposição da população LGBTI+ a situações de discriminação e violência no ambiente acadêmico. Cerca de 63% das e dos respondentes afirmaram ter sofrido LGBTI+fobia, com predominância de 13% frequentemente e sempre.

Desvalorização Salarial
O levantamento também apontou para dificuldades financeiras enfrentadas por parcela significativa da categoria. Quase 60% das e dos docentes ativos relataram ter recebido reajustes salariais abaixo da inflação nos últimos anos, em paralelo a 23,5% que afirmaram não ter recebido qualquer reajuste.

Além disso, 67,8% possuem algum tipo de dívida, e mais de um terço realiza atividades remuneradas adicionais para complementar a renda, evidenciando os impactos das perdas salariais e da desvalorização da carreira docente. Docentes pretos, pardos e indígenas apresentaram índices mais elevados de endividamento 77,3%.

Aposentadas e aposentados
Entre docentes aposentadas e aposentados, o relatório mostrou que persistem desigualdades de gênero e raça relacionadas à saúde e ao endividamento. As reformas da Previdência e as mudanças na carreira docente contribuíram para o achatamento salarial e para a deterioração das condições de vida de parte significativa deste segmento da categoria.

Cerca de 39,1% das aposentadas e dos aposentados acreditavam que seu quadro de adoecimento possui relação com o trabalho que exerciam. Além disso, 31,3% relataram redução das horas de sono e da prática de atividades físicas no último ano. Por outro lado, o índice de sindicalização entre a categoria aposentada é elevado, alcançando 91,4%. Entre as e os docentes ativos, esse percentual é de 74,6%.

Resultado
Para o GTSSA, os dados reforçaram que o debate sobre saúde docente não pode ser tratado apenas como uma questão individual, mas deve ser compreendido a partir das condições concretas de trabalho e das desigualdades que atravessam a categoria.

“Somos um sindicato classista, mas reconhecemos que existe uma interseccionalidade de gênero, raça e de geração que precisa ser considerada quando planejamos estratégias de luta e enfrentamento. Quando lutamos por aposentadoria com integralidade e paridade, por melhoria salarial e valorização da carreira, estamos também lutando pela promoção da saúde e da qualidade de vida da categoria”, ressaltou Jacqueline Lima.

Conforme a diretora do ANDES-SN, os resultados da enquete devem subsidiar debates nas seções sindicais e fortalecer o diálogo com as administrações das instituições de ensino superior. “É importante ampliar o diálogo das seções sindicais com as administrações das universidades a partir desses resultados, construindo estratégias coletivas de enfrentamento, mobilização, denúncia e transformação das condições de trabalho”, concluiu.

Confira aqui o material

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