Publicação reforça o compromisso entre a atuação sindical e a produção científica
Lançada em 1991, no décimo aniversário de fundação do ANDES Sindicato Nacional, a Revista Universidade e Sociedade nasceu como um instrumento fundamental de ação política e acadêmica. Um de seus maiores marcos históricos ocorreu logo na edição número 1, que trouxe uma entrevista exclusiva com o educador Paulo Freire, discutindo a universidade democrática e a alfabetização como prática de liberdade. A entrevista é reproduzida ao final desta matéria.

O surgimento da revista ocorreu em uma conjuntura extremamente complexa, alguns anos após o fim da ditadura empresarial-militar, com o objetivo de enfrentar o projeto ditatorial de Universidade e colaborar com o processo de redemocratização do país. Originalmente com periodicidade quadrimestral, a publicação passou a ser semestral a partir da edição 35, em fevereiro de 2005.
Entre as propostas para a criação da revista estavam constituir um fórum de debates de questões que diziam respeito à educação superior brasileira, divulgar trabalhos, pesquisas e comunicações de caráter acadêmico que abordassem e/ou refletissem as questões do ensino, cultura, artes, ciência e tecnologia, permitir troca de experiências, espaço de reflexão e discussão crítica favorecendo a integração dos e das docentes, e, ainda, oferecer espaço à apresentação de experiências de organizações sindicais de outros países, especialmente da América Latina, visando a integração e a conjugação de esforços em prol de uma educação libertadora.
“À medida que o mundo se converte numa tribo, a perspectiva internacionalista se impõe como uma exigência inadiável. Por insignificantes que possam parecer, há tarefas intransferíveis que cabem a nós, trabalhadores do setor da educação e ciência, que batalhamos no Brasil, em relação ao sindicalismo mundial. Omitirmo-nos a assumir nosso papel, será um desserviço à causa universal dos trabalhadores”, afirmou o editorial do primeiro número, assinado por Sadi Dal Rosso, editor do primeiro número e presidente do ANDES-SN entre 1988 e 1990.
Dal Rosso ressaltou ainda que a revista Universidade e Sociedade seria a única, no Brasil, a analisar a educação e a sociedade a partir da ótica da universidade, e a universidade e a educação, mediante as necessidades e as exigências do conjunto da sociedade. “Nesse sentido não poderá se fechar às questões internas da universidade. Estará, antes, constantemente aberta para acompanhar a caminhada do povo brasileiro, para cuja revolução social supõe que anteceda ou acompanha uma verdadeira revolução educacional”, destacou.
Trajetória e destaques editoriais
Ao longo de décadas, a revista registrou as principais lutas do movimento docente. O debate sobre a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), as contrarreformas do Estado, em diferentes governos pós redemocratização, que afetaram a educação, a previdência e os direitos trabalhistas, a expansão desordenada do ensino superior, a privatização e mercantilização da educação e da ciência e tecnologia, a saúde docente e o ensino a distância foram alguns dos tantos assuntos elaborados nos mais de 70 números da revista.
A Universidade e Sociedade também é um espaço de reflexão sobre temas cruciais para a sociedade e ajuda, inclusive, no registro histórico dos diferentes enfrentamentos da classe trabalhadora, no Brasil e no mundo, ao longo das últimas três décadas.
As publicações trouxeram, por exemplo, denúncias sobre o suicídio de jovens indígenas Guarani, a violência policial contra as populações periféricas e os crimes da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti. Trataram da luta do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra por reforma agrária, das mulheres por mais espaço na política e no movimento sindical, as jornadas de Junho de 2013 e seus impactos, a crise climática e a necessidade de pensar uma outra forma de sociabilidade, entre outros temas de relevância.
Confira alguns destaques abaixo (acesse todas as publicações aqui):
REVISTA 01 (Fevereiro 1991): Além da entrevista com Paulo Freire, abordou os desafios do movimento docente após dez anos de ANDES, a autonomia coletiva, o papel da universidade pública e trouxe reflexões de Florestan Fernandes e Ignez Navarro de Moraes sobre a "conciliação aberta" na LDB. A revista publicou ainda a Carta do Rio de Janeiro, documento síntese do I Encontro Latinoamericano de Organizações de Docentes de Instituições de Ensino Superior, realizado de 24 a 26 de outubro de 1990.
Revista 05 (Julho 1993): Focou na Revisão Constitucional, na relação entre Educação e Trabalho e apresentou uma entrevista com Dom Pedro Casaldáliga.
Revista 09 (Outubro 1995): Abordou a questão agrária e introduziu, pela primeira vez, o tema da Comunicação, debatendo o monopólio da terra versus o monopólio da comunicação e a necessidade de uma política de comunicação para o Sindicato Nacional.
Revista 12 (Fevereiro 1997): Trouxe um encarte especial sobre a LDB. O material analisou o processo de construção democrática da Lei nº 9.394/96 até sua aprovação, considerada antidemocrática, incluindo uma análise técnica de seus principais pontos.
Revista 13 (Julho 1997): Destacou o ensaio fotográfico "Terondera" ("Sem amanhã"), denunciando o genocídio moderno e o suicídio de jovens indígenas Guaranis no Mato Grosso do Sul devido ao avanço do agronegócio sobre as terras daquele povo.
Revista 15 (Fevereiro 1998): Apresentou uma entrevista histórica com o centenário jornalista Barbosa Lima Sobrinho, que aos 100 anos defendia o nacionalismo contra o fracasso do governo FHC. A publicação trouxe também um Caderno Especial com a proposta do Plano Nacional de Educação (PNE), elaborada pela sociedade brasileira.
Revista 20 (Set/Dez 1999): Homenageou a resistência de Chiapas e o povo mexicano com a publicação de uma carta do Subcomandante Marcos a José Saramago, prêmio Nobel de literatura. A revista trouxe também a seção "Mulher & Sociedade", que discutiu ações afirmativas de gênero, saúde reprodutiva e estereótipos sexistas no ensino superior.
Revista 23 (Fev 2001): Realizou um resgate dos 20 anos do ANDES-SN, com síntese histórica, conjunto fotográfico e homenagem ao jornal do sindicato, InformANDES, como preservador da memória docente.
Revista 27 (Junho 2002): Debateu o binômio "Mídia e Poder", analisando o capital estrangeiro na mídia brasileira e a disputa de hegemonia pela comunicação sindical.
Revista 28 (Novembro 2002): Inaugurou a editoria "Debates Contemporâneos", tratando das mentiras da guerra no Afeganistão, a luta pela água e os fundamentos do teatro de Brecht.
Revista 29 (Março 2003): Sob o tema "Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil", fez história ao publicar o primeiro artigo de autores e autoras indígenas (Aurivan Truká, Pina Tembé, Dina XoKleng e Bruno Xavante), relatando suas experiências de luta e legitimidade das ocupações.
Revista 30 (Junho 2003): Focou na Seguridade Social e na contrarreforma da Previdência do primeiro governo Lula, analisando o valor estratégico da previdência pública e o impacto na categoria docente.
Revista 33 (Junho 2004): Analisou criticamente a contrarreforma universitária em curso no governo Lula.
Revista 37 (Março 2006): Edição especial dos 25 anos do ANDES-SN, com entrevistas sobre a militância política e sindical, além de debater a concepção de "universidade shopping center".
Revista 43 (Janeiro 2009): A publicação teve como tema a nova divisão internacional do trabalho e a América Latina: perspectivas e desafios. Trouxe também o dossiê “A OIT, ações do ANDES-SN e a Liberdade Sindical”, caracterizando as lutas pela organização nas instituições de ensino superior particulares e confessionais e as convenções da Organização Internacional do Trabalho.
Revista 44 (Julho 2009): Além de tratar da crise da economia capitalista e os desafios da universidade pública, incluiu o dossiê “Repressão Institucionalizada”, relatando, no calor dos fatos, os violentos acontecimentos na Universidade de São Paulo (USP), em junho de 2009, quando a administração superior da instituição fez uso da força policial dentro do campus contra docentes e estudantes.
Revista 45 (Janeiro 2010): Abordou a alienação e o estresse no trabalho docente e a reforma na Educação. Incluiu ainda o dossiê “Por um Haiti livre”, denunciando a deterioração da vida sob a ocupação da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah) e exigindo a retirada das tropas brasileiras.
Revista 46 (Junho 2010): Com tema "Política de Cotas na Universidade: Acesso, Permanência e Democratização", deliberado por decisão congressual, a publicação reuniu 12 textos defendendo as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas como fundamentais para a coesão social e o combate ao racismo estrutural. A publicação trouxe um ensaio do professor Kabengele Munanga, sobre o papel do multiculturalismo, com relação à diversidade étnica.
Revista 47 (Fevereiro 2011): Número especial do 30º Congresso do ANDES-SN, revisitando as três décadas da entidade e das lutas, derrotas e vitórias da categoria docente.
Revista 51 (Março 2013): Refletiu sobre a crise capitalista e a histórica greve docente de 2012 em diversas universidades estaduais e também nas universidades federais. A paralisação das IFE durou quatro meses e unificou diversas categorias do serviço público federal.
Revista 53 (Fevereiro 2014): Trouxe artigos sobre educação, as Jornadas de Junho e a ordem pública numa era de violência, além de abordar a precarização do trabalho docente e da educação pública. A editoria “Atualidade em Foco”, trouxe um ensaio fotográfico das manifestações de junho de 2013.
Revista 57 (Janeiro 2016): Focou nas lutas sociais contra a agenda do capital e registrou a greve dos docentes federais de 2015 em sua seção de atualidades.
Revista 59 (Janeiro 2017): Discutiu os limites do capital em questões agrárias, urbanas e ambientais, com foco na flexibilização da legislação ambiental e biocombustíveis.
Revista 60 (Julho 2017): Abordou a dívida pública e as contrarreformas. Incluiu o ensaio fotográfico "Ousar lutar, ousar vencer" sobre o movimento #OcupeBrasília, que levou mais de 150 mil pessoas à capital federal contra a reforma da Previdência de Michel Temer e foi duramente reprimido pelas forças armadas.
Revista 62 especial (Junho 2018): Primeira edição especial da revista, abordou os 130 anos da abolição da escravidão, focando na resistência do povo negro, na luta por reparações e denúncias contra o trabalho escravo contemporâneo.
Revista Outubro 2019 (Especial América Latina): Edição bilíngue comemorativa do Dia do Professor e da Professora, analisando o projeto do capital para a educação superior em diversos países latinos e rememorando Paulo Freire.
Revista 66 (Julho 2020): Dedicada ao legado de Paulo Freire frente aos ataques intensificados à educação e ao desastre econômico precipitado pela pandemia de Covid-19, sob o governo do presidente de extrema direita, Jair Bolsonaro.
Revista 67 (Janeiro 2021): Analisou o binômio "Pandemia e Educação", criticando o Ensino Remoto e seus impactos na saúde mental e na destruição da universidade pública.
Revista 68 (Julho 2021): Comemorou os 30 anos da Universidade e Sociedade e os 40 anos do ANDES-SN. Incluiu uma "Página de Silêncio" em homenagem às vítimas da Covid-19, como o funcionário do ANDES-SN Marcos Goulart de Souza.
Revista 70 (Julho 2022): Debateu os desafios do retorno ao ensino e demais atividades presenciais e a resistência necessária para não deixar o governo "passar a boiada" no orçamento destinado ao ensino superior público.
Revista 71 (Fevereiro 2023): Analisou o fenômeno anti-ciência e o negacionismo, o Novo Ensino Médio, os reflexos do trabalho remoto na saúde de docentes universitários. Trouxe a reportagem fotográfica "Derrotar Bolsonaro nas ruas e nas urnas", que registrou a luta da categoria docente contra o governo de extrema direita.
Revista 73 (Fevereiro 2024): Resgatou a história do movimento docente no marco dos 60 anos de resistência à ditadura empresarial-militar.
Revista 74 (Julho 2024): Reafirmou a urgência da luta antirracista nas Universidades, Institutos Federais e Cefets.
Revista 75 (Janeiro 2025): Marcou o lançamento da seção Internacional, com textos bilíngues, além de uma análise ética e política da greve das universidades, institutos federais e cefets em 2024.
Revista 77 (Janeiro 2026): Edição lançada no 44º Congresso ,realizado em março deste ano, em Salvador (BA), no marco dos 45 anos do ANDES-SN, celebrados em 19 de fevereiro. A publicação aborda as resistências e desafios da categoria docente em universidades multicampi e em regiões de fronteira.
*Reproduzida integralmente da Revista Universidade e Sociedade Nº 01, Fevereiro de 1991.
O ANDES - SINDICATO NACIONAL foi a São Paulo conversar com Paulo Freire, o educador brasileiro mais conhecido e premiado mundialmente. Paulo Freire falou de suas idéias sobre a Universidade, a educação em geral e de seu trabalho atual na Secretaria de Educação do Município de São Paulo.

ANDES-SN: A Universidade não tem sido um tema tratado por você com frequência, pelo menos de modo explícito. Entretanto, a educação como prática da liberdade tem relação com a Universidade democrática. Como você vê esta relação?
PAULO FREIRE: De fato, explicitamente, não tenho falado muito da Universidade mas implicitamente sim. Isto não quer dizer que não me preocupe ou não goste da Universidade, aliás eu sou um professor universitário. O problema da Universidade Brasileira é que ela tem sido, em todos estes anos, elitista, autoritária e distanciada da realidade. Veja o problema do analfabetismo. Ela simplesmente o ignora, passa ao largo. É verdade que existem exceções. A Universidade Federal da Paraíba vem se preocupando com o problema, mas é preciso que outras, também, se voltem para estudar, pesquisar o problema da alfabetização de adultos e crianças. Embora o analfabetismo não seja um problema apenas pedagógico, a formação de nossos professores, por exemplo, precisa ser mais cuidada. É preciso que leiam autores como Emília Ferreiro, Vigotsky, Snyders e outros. Mas é importante que os textos sejam contextualizados. É preciso ler o mundo, ler a realidade de modo crítico. É preciso que a leitura da palavra seja precedida da leitura do mundo e, este não é um problema apenas da alfabetização, como possa parecer a alguns. Na Universidade, às vezes, os professores esquecem totalmente esta questão. Veja, quando o aluno trabalha com um texto ele, às vezes sequer contextualiza este texto. É necessário que ele situe o autor no tempo, que compreenda o momento em que o autor escreveu e relacione com o momento atual do leitor. Educador e educando precisam superar a postura ingênua e vivenciar uma prática concreta de construção da história. Em relação à questão da democracia é preciso muito mais, é preciso democratizar a Universidade por dentro e por fora. É preciso que um maior número de trabalhadores tenha acesso à Universidade mas também as relações internas da Universidade precisam ser democratizadas. Não basta eleger os dirigentes. Às vezes, nos apegamos a um certo ritualismo mecânico e não avançamos na democratização das relações entre os diferentes segmentos da Universidade. As relações entre professores e alunos precisam ser, de fato, relações educativas, dialógicas.
ANDES-SN: A alfabetização é um tema sobre o qual você inovou e, assim, se projetou mundialmente. Como você vê o problema no Brasil hoje?
PAULO FREIRE: É claro que não podemos achar que o que servia para o Brasil da década de 60, serve hoje. O país mudou, mas o problema do analfabetismo permanece e tem-se feito muito pouco neste sentido. Aqui em São Paulo estamos trabalhando com algumas Universidades, através de convênios com a Secretaria e estamos fazendo um trabalho que acredito seja uma importante contribuição à educação do trabalhador. Estamos desenvolvendo um amplo programa de alfabetização e pós-alfabetização coordenado pelo Moacir Gadotti. É o “MOVA” como é conhecido. Aqui, a educação do trabalhador, (criança, jovem e adulto) vem sendo tratada de modo integrado. Não adianta continuarmos nos preocupando apenas com a alfabetização do adulto quando a escola continua expulsando os alunos que vão engrossar o contingente de adultos analfabetos. É preciso alfabetizar os adultos, mas também criar condições para que a escola não continue produzindo analfabetos. É preciso uma transformação radical que mude a cara da escola. Certamente que a mudança da própria situação sócio-econômica do povo brasileiro é fundamental.
ANDES-SN: Enquanto Secretário de Educação de um Município tão complexo como é São Paulo, você deve estar vivendo uma experiência muito rica. Quer falar sobre ela?
PAULO FREIRE: Eu teria muita coisa para contar. Prefiro, porém, dizer uma coisa rápida e sinceramente: não me arrependo de ter aceito o convite de Erundina para fazer com ela e um bando de gente boa, esta caminhada. Não me arrependo. Mas, não é fácil mudar.
ANDES-SN: Você é um dos educadores brasileiros mais premiados no exterior. Recentemente esteve na Europa onde recebeu um prêmio. Em que consistiu esse prêmio?
PAULO FREIRE: Na verdade, nestes 16 meses em que sou Secretário de Educação da Cidade de São Paulo, estive algumas vezes no exterior. Gostaria de dizer que, em nenhuma destas viagens, a administração pública teve de gastar sequer um cruzeiro. Têm sido todas estas viagens financiadas pelos organismos que me convidam e que são ora Universidades, ora administrações municipais, ora órgãos internacionais. No próximo mês de maio, por exemplo, estarei me ausentando de São Paulo para receber o doutoramento honoris causa da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos. Depois que assumi como secretário este é o terceiro doutoramento que recebo e, nestas ocasiões, de modo geral, falo do que fazemos e do que não podemos fazer à frente da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Tenho uma compreensão diferente, não provinciana das relações que o administrador de um setor de trabalho da municipalidade, sobretudo de uma cidade como São Paulo, deve ter com outras partes do mundo. Não me considero turista. Sou um educador engajado, mesmo que nada tenha contra turistas.
ANDES-SN: O que está mudando na Secretaria de Educação Municipal de São Paulo e em que consiste esta mudança?
PAULO FREIRE: A Secretaria Municipal de Educação de São Paulo compreende uma rede de 653 escolas onde funcionam 18.305 classes regidas por 26.966 professores atendendo a 676.239 alunos. Ao assumir a Secretaria, nos comprometemos a construir uma educação pública, popular e que tenha como marca principal a educação como prática da liberdade. Entende-se a escola como um espaço de educação popular voltado para a formação social crítica e para a sociedade democrática. A escola é aberta para que o povo participe coletivamente da construção de um novo saber que leve em conta suas necessidades e se torne instrumento de luta, possibilitando-lhe transformar-se em sujeito de sua própria escola. Nesta perspectiva, a escola é também centro irradiador de cultura popular em permanente recriação e também espaço de organização política das classes populares. O trabalhador deve encontrar nesta escola um lugar de debates de ideias, soluções, reflexões onde sistematizando sua própria experiência encontrará meios de auto-emancipação intelectual independentemente dos valores da classe dominante. Temos quatro grandes prioridades que não são hierárquicas mas concomitantes. As mudanças estão se dando, ao mesmo tempo, nos currículos, entendidos de modo amplo, nas próprias condições físicas da escola, no professor que está realizando um amplo programa de formação permanente e na questão da alfabetização de jovens e adultos que já estavam fora da escola. Está mudando além disso a forma de se processar a mudança que está sendo compartilhada, participativa. Estamos construindo progressivamente uma escola pública, popular, autônoma, criativa, competente, séria e alegre ao mesmo tempo, animada por um novo espírito.
ANDES-SN: No seu livro Medo e Ousadia você diz que os professores deveriam ter nas mãos, através de suas organizações, não só a defesa dos salários, mas o processo de sua formação permanente. Pode falar sobre esta questão?
PAULO FREIRE: Estou convencido, em primeiro lugar e nisto não estou só, de que a luta dos professores e professoras, jamais deixando de lado a reivindicação salarial, deve ir mais além dela. Ir mais além da reivindicação salarial significa lutar por melhores condições de trabalho, que, proporcionando maior conforto às educadoras e educadores, lhes ofereçam caminhos à criatividade. O descaso a que vem sendo relegada a educação entre nós é tal que se torna fácil reconhecer quão difícil é deixarmo-nos tocar pela paixão de mudar, de refazer, de criar, o que nos empurraria a ir mais além da reivindicação salarial. É neste sentido que a clareza política em torno do que fazemos como educadores ou educadoras, em torno de nosso sonho que é político, se impõe a nós como necessidade de nosso fazer. Quanto mais criticamente claros nos tornamos em face de, a favor de que e de quem, contra que e contra, quem somos educadoras e educadores, tanto melhor percebemos que a eficácia de nossa prática exige de nós competência científica, técnica, e política. Jamais uma sem a outra. Jamais clareza política sem saber científico. Jamais este com ares de descomprometido. Na linha destas reflexões é que me parece fundamental o papel político-pedagógico das entidades da categoria. Tudo o que puder ser feito como contribuição à formação permanente de seus quadros, numa prática e numa visão que não dicotomize o político do científico, deve ser feito.
ANDES-SN: Há cerca de dois anos atrás, falando das perspectivas da educação, você apontava como tarefa fundamental deste final de século a tarefa da libertação e apontava a prática educativa como processo de resgate da liberdade. Como se dá esse resgate?
PAULO FREIRE: Penso que a liberdade, como gesto necessário, como impulso fundamental, como expressão de vida, como anseio quando castrada, como ódio quando explosão de busca, nos vem acompanhando ao longo da história. Sem ela, ou melhor, sem luta por ela, não é possível criação, invenção, risco, existência humana. O que ameaça a liberdade não é, porém, o limite de que precisa para ser e sem o qual, deixando de ser, vira licença. O que ameaça a liberdade é o arbítrio que, despótico, se faz autoritarismo. Há sempre ameaças rondando a liberdade que, por isso mesmo, precisa estar desperta. A libertação é o processo permanente de busca da liberdade, que não é ponto de chegada, mas sempre de partida. Se hoje faminto e cansado, preciso de pão e repouso, amanhã, alimentado e dormido, descubro que preciso de som, de imagem, de palavra escrita. Ontem, precisado do fundamental para viver, não percebia o significado do ato arbitrário que fez mudar uma estação de rádio ou silenciou um jornal ou proibiu a venda de um livro. A luta pela liberdade implica um mínimo de sentimento e de percepção da falta da liberdade. Esta luta vem dando sentido à minha prática de educador. Lutar pela libertação, como busca permanente, é a forma que encontro neste final de século, para ser autenticamente gente.