ANDES-SN 45 Anos: A comunicação como direito e como ferramenta de luta

Publicado em 19 de Junho de 2026 às 14h32. Atualizado em 19 de Junho de 2026 às 14h35

Como parte das celebrações dos 45 anos do ANDES-SN, resgatamos no mês de junho - que marca o Dia Nacional da Liberdade de Imprensa (7/6) - a trajetória da comunicação do Sindicato Nacional, compreendida não apenas como suporte administrativo, mas como uma pauta política estratégica, uma ferramenta de luta e um direito fundamental. Desde o uso de mimeógrafos, na década de 1980, até os desafios impostos pela Inteligência Artificial (IA), a entidade consolidou uma comunicação contra-hegemônica, voltada para a disputa de consciência na sociedade e a defesa da educação pública.

Luiz Henrique Schuch, ex-presidente e ex-encarregado de Imprensa e Divulgação do ANDES-SN. Fotos: Eline Luz/Imprensa ANDES-SN

A história do Informandes, jornal mensal da entidade, é um pilar central desse percurso, sendo resgatada na edição nº 23 da revista Universidade e Sociedade, que celebrou os 20 anos do ANDES-SN, como o principal registro da memória docente e das lutas da categoria. Lançado em 1981, o informativo nasceu junto com o próprio sindicato, para garantir a comunicação direta com as bases, evoluindo de boletins artesanais para um projeto gráfico moderno e de circulação nacional. 

O ex-presidente e ex-encarregado de Imprensa e Divulgação do ANDES-SN, Luiz Henrique Schuch, conta que a sua trajetória na Comunicação da entidade é marcada por um aprendizado rico. “Está na matriz da nossa organização, a ideia de comunicação em particular com a categoria, com interfaces com a comunicação com outros setores da sociedade e também em cada seção sindical e no ANDES Sindicato Nacional. Marcar, através dos instrumentos de comunicação, os grandes passos que estavam acontecendo. No início, foi um processo mais militante, que, inclusive, não envolvia jornalistas”, conta, com a voz embargada.

“Eu lembro de passar a noite num mimeógrafo (...) que tinha que botar um avental, porque ele saía todo cheio de tinta, para ter um boletim para sair o outro dia de manhã, distribuindo pelas unidades, conversando com os professores”, continua.

De acordo com o ex-diretor do Sindicato Nacional, houve, então, a compreensão de que era necessário trabalhar a comunicação de uma forma mais profissionalizada. Segundo ele, foi uma caminhada que as seções sindicais e o Sindicato Nacional percorreram, cada qual em seu próprio tempo, dada a importância de superar aquele momento de uma comunicação necessária, porém mais militante e artesanal, por uma organização mais profissionalizada do processo de comunicação. 

Comunicação como pauta de luta
A inserção do ANDES-SN no debate nacional sobre a democratização da comunicação remonta à Assembleia Nacional Constituinte (1987-1988), quando se percebeu que a disputa pela educação pública era indissociável da disputa pelos meios de comunicação. 

Conforme o docente, embora já houvesse a compreensão da importância da Comunicação no processo educacional, durante os debates na Constituinte sobre o conteúdo da Constituição apareceram alguns temas que mobilizaram muito o ANDES-SN naquele momento, além da educação e do serviço público. Um deles foi a questão do Sistema Único de Saúde (SUS), o outro a Comunicação. 

“Participamos muito no debate com nomes que, hoje, a gente coloca na história da construção do SUS no Brasil. Mas a questão da comunicação, em particular, teve um elemento a mais. A parte inicial da Constituinte, que foi a maior parte do tempo de trabalho, debate, oitivas, disputas, se deu através de subcomissões. As grandes temáticas foram organizadas em subcomissões. E a Educação ficou na mesma subcomissão que a Comunicação”, recorda.

Schuch relembra que, nessa subcomissão, a articulação de setores conservadores e das empresas de mídia, por exemplo da Rede Globo, barrou avanços propostos por figuras como Florestan Fernandes, que era deputado constituinte. “O nosso representante máximo nas interlocuções [com o relator deputado Artur da Távola] era o Florestan Fernandes, que era deputado constituinte na época. O relator produziu um relatório, vamos dizer, minimamente palatável. Mas não foi palatável suficiente para a bancada evangélica e para os representantes da Rede Globo”, lembra.

O ex-diretor do ANDES-SN afirma que foi um desfecho único e dramático na Constituinte, pois aquela foi a única comissão da Constituinte que não conseguiu produzir um relatório para oferecer à Comissão Geral de Relatoria da Constituinte. Esse episódio impulsionou o sindicato a inserir a democratização da comunicação em sua pauta permanente de lutas . 

“Um pouco nesse embalo nós entramos nos anos 90, já com a Constituição em vigor, muito pululantes em torno desse tema. O GTCA [Grupo de Trabalho de Comunicação e Arte] passou a ter força política dentro do ANDES-SN, e apontou para a necessidade de uma grande mexida no Sindicato em torno da comunicação. Eu assumi a presidência do sindicato, em 1994, exatamente nesse momento, quando já estava marcado o 1º Encontro Nacional de Comunicação do ANDES-SN, em Salvador”, conta.

De acordo com o docente, o encontro foi um evento amplo, que garantiu discussões muito aprofundadas. De lá, saíram dois eixos de disputa: a organização da comunicação do Sindicato Nacional e das seções sindicais e a luta pela democratização das comunicações, com a construção de um processo contra-hegemônico. Esse debate deu origem a diversas iniciativas, entre elas a percepção, que depois se materializa no Plano de Comunicação, da possibilidade do ANDES-SN atuar em rede, devido à sua capilaridade através das seções sindicais, com jornalistas em várias regiões do país. 

“Tem que pensar no ambiente em que nós estávamos naquele momento. Foi naquela gestão que apareceu, pela primeira vez, a possibilidade do ANDES-SN ter um aparelho celular para o seu presidente. E também, pela primeira vez, se conseguiu colocar os quatro computadores da sede do sindicato em rede, conectados com um computador externo. A questão da informática, das plataformas, estava praticamente na estaca zero. Nesse ambiente, percebemos que era preciso fazer alguma coisa”, relembra. 

Experiências ousadas e o choque com a mídia comercial
Nos anos 90, o sindicato viveu um período de experimentações intensas, incluindo anúncios em horário nobre na televisão. Schuch classifica essas tentativas como "meio ousadas", citando a campanha do "homem das cavernas" sobre o futuro da universidade, que a entidade veiculou na Rede Globo.

Segundo o ex-diretor, o custo era altíssimo e a eficácia era frequentemente neutralizada pelos apresentadores. “Uma cara feia do âncora do próprio jornal, logo depois dos nossos 30 segundos, desmoralizava ou neutralizava pelo menos uma boa parte da nossa mensagem. Daí para frente, passou-se a repensar muito essa ideia de ‘vamos fazer uma campanha de mídia’. Porque quem está na outra perspectiva de comunicação têm muito recurso e instrumentos para neutralizar a eventual movimentação positiva de um material nosso”, avalia. 

Outro projeto ambicioso foi a Agência de Notícias ANDES, criada em 1995, para pautar a grande imprensa com a perspectiva da classe trabalhadora. Segundo Schuch, foi montada uma estrutura própria, com profissionais para produzir conteúdo jornalístico para ser distribuído para veículos de imprensa em todo o país, na expectativa de burlar a barreira das empresas às pautas de luta do Sindicato Nacional.

Apesar da contratação de jornalistas experientes e visitas a redações como as da Folha de S. Paulo e do jornal O Globo, a experiência revelou novamente os limites da mídia comercial. "Chegamos à conclusão de que tinha sido um pouco utópico pensar que, se nós resolvêssemos o problema na geração das notícias, elas iam aparecer. Foram uma ou duas matérias que saíram com créditos", admite Schuch.

O planejamento e a rede de comunicação
Durante a primeira década dos 2000, o ANDES-SN fortaleceu sua atuação externa participando ativamente do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), em 2009, e da coleta de assinaturas para o Projeto de Lei de Iniciativa Popular (PLIP) por uma mídia democrática.

Impulsionado pelo 1º Encontro Nacional de Comunicação e pelas atuações políticas na pauta, o debate sobre a estruturação e profissionalização da comunicação do ANDES-SN ganhou força e culminou na aprovação do Plano Nacional de Comunicação, em 2011, no 30º Congresso de Uberlândia (MG), no marco dos 30 anos do Sindicato Nacional. Esse plano estruturou a comunicação em três eixos: a disputa pela democratização da comunicação, a ampliação dos espaços próprios do ANDES-SN e a integração com arte e cultura. 

Nesse percurso, a parceria de três décadas com o Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC) foi fundamental para a formação crítica e prática de dirigentes e profissionais de comunicação da entidade. A colaboração permite construir uma comunicação popular questionadora, essencial para que as pautas docentes ressoem na sociedade e enfrentem as velozes transformações tecnológicas.

Schuch lembra que o Sindicato voltou à temática da comunicação em 2013, no 32º Congresso do Rio de Janeiro, devido à necessidade de avançar no debate sobre a presença digital do Sindicato. “Em 2013, conseguimos levar para o Rio de Janeiro, a partir da produção do GTCA e da discussão da diretoria, uma plataforma de grandes eixos que nortearam o âmbito das questões digitais nessa disputa pela democratização das comunicações. Então, lá aprovamos nove ou dez eixos que nos orientam até hoje. Certamente insuficientes no atual momento, mas que nos direcionaram em relação a essa disputa na época”, recorda.

Os canais históricos, como o Informandes (lançado em 1981) e a Revista Universidade e Sociedade (1991), seguem como registros da memória e instrumentos de "presença física" do sindicato nas bases. Com o tempo, foram incorporados canais de vídeo, redes sociais e matérias diárias no site.

Desafios da Inteligência Artificial e Soberania Digital
Hoje, aos 45 anos, o sindicato enfrenta a precarização intensificada pela Inteligência Artificial (IA) e pelos grandes conglomerados digitais, conhecidos como big techs. Schuch destaca que o ambiente digital de "lacração" e algoritmos dificulta debates profundos.O docente alerta para o perigo de um sindicalismo à distância e para o "empapamento" da opinião pública por robôs e fake news. “É um desafio extremamente difícil (...) Nós não escapamos disso sem trabalhar um eixo da notícia, do fato político, mas com um eixo de grande debate, também é responsabilidade da comunicação produzir elementos para o grande debate, que nos permitam a politização, a formação de quadros, com percepção para organizar essa relação tática-estratégica”, afirma. 

O plano de Comunicação do Sindicato Nacional foi atualizado novamente em 2023 e reforça a importância de disputar a hegemonia e trabalhar em rede, integrando as assessorias das seções sindicais para combater a desinformação e fomentar o uso de software livre. Também defende a soberania digital e tecnologias que favoreçam a classe trabalhadora contra o domínio econômico e a manipulação política.

O debate em torno da comunicação também pauta a importância do desenvolvimento, nas universidades públicas, de tecnologias da informação e comunicação gratuitas e nacionais, em detrimento da pactuação de contratos com grandes conglomerados internacionais de tecnologia da informação e comunicação.

No 44º Congresso, realizado este ano em Salvador (BA), a diretoria nacional apontou a necessidade de retomar, fortalecer e ampliar a participação docente no Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação. Para Luiz Henrique, essa deliberação é fundamental para manter o Sindicato Nacional atuante e participante nos principais embates da atualidade.

“Eu compreendo que seja muito importante a articulação em um movimento presente, amplo, de baixo para cima, lá das seções sindicais até a direção nacional, [...] com a construção da possibilidade de estarmos enraizando esse debate em todo o país, através das seções sindicais, e influindo no que pode ser hoje uma força política e social do campo classista, do campo dos trabalhadores para a construção desse embate”, analisa. 

“Eu falei do embate da pré-Constituinte, o embate da Constituinte, o embate dos anos 2000, e o embate agora talvez seja mais radicalizado ainda, e nós não podemos ficar fora disso. Então, precisamos sim colocar isso no centro da atuação do nosso Sindicato. [...] É responsabilidade do ANDES-SN e das seções sindicais intervir nisso com força e  disposição”, acrescenta.

Para o ex-presidente do ANDES-SN, a possibilidade de acompanhar “de perto” o processo de desenvolvimento e evolução da comunicação da entidade permitiu grandes aprendizados. Luiz Henrique avalia que a criação, manutenção e profissionalização da comunicação do Sindicato Nacional, ao longo das décadas, foi uma decisão política acertada, para garantir a “presença física” da entidade junto à categoria docente em todo o país. 

Segundo Schuch, ter um meio físico sobre a mesa do docente — seja o jornal ou a revista Universidade e Sociedade — e, hoje, no whatsapp e no feed da categoria, são formas de materializar a relação do ANDES-SN com a categoria. “Pela opção que se fez de ser uma organização por local de trabalho, mas, ao mesmo tempo, uma Sindicato Nacional num país do tamanho do Brasil, o ANDES-SN tem que tomar o cuidado para não parecer abstrato para a categoria docente. E uma das maneiras de não ser abstrato é ter um meio físico, um canal de comunicação, que chegue ao sindicalizado e à sindicalizada, que esteja em cima da mesa, no celular, no e-mail. Esses materiais servem para mostrar também como a minha seção sindical, que me visita, tem uma relação com o Sindicato Nacional, que não é meramente abstrata, etérea, que existe. Então, me parece que a comunicação cumpriu, e segue cumprindo, um papel muito importante”, conclui.

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